Thursday, May 18, 2006

DESESPERO DE UMA MÃE


Erica ia postar-se todos os dias na praia do Cais da Alfândega Velha. Percorria aquela areia branca gritando pelo fruto da sua entranha. Fez uma promessa que se ele voltasse são e salvo nunca mais o deixaria voltar a pôr os pés no mar.

Os passantes que tinham conhecimento daquela tragédia paravam e com o coração partido observavam impávidos o desespero daquela mulher.

“Porquê a vida tem dessas? Ainda bem que o meu homem é carpinteiro.” - Disse uma peixeira que ia apressada para o Cais de pesca em busca de alguns minguados.
“Vá para casa. Tens que conformar”...
“Como é que posso me conformar? O único fruto das minhas entranhas está desaparecido nesse mundo de água e pedes-me consolança? Quem é que vai ajudar Santana a criar aqueles Anjos de Cristo? Qual futuro terão nesse mundo?!”
“Larga tudo nas mãos do Criador. Ele é maior.” - Disse-lhe um ancião olhando para o firmamento.
“Ele esqueceu de mim”...
“Não diga isso que ele castiga quem blasfema.”
“É o sofrimento que está falando mais alto.” - Retrucou alguém.
“ Sei do que ela está falando. Perdi dois filhos que trabalhavam nas obras em Portugal”...
“A vida é assim. Hoje perdemos algo de valor aqui para ir encontrar outra coisa de mais valor lá na frente. “– Disse um crente.
“Tenho que ficar, o meu coração de mãe ‘ti ta dzem que nhã fidj ta viv’ que tarde ou cedo ele há de aparecer. Quero estar presente para recebe-lo nesses braços franzidos pelo tempo e que tanto o acoitaram em criança.

Aquela pobre velha, passado um ror de anos ainda se encontra na praia do Cais da Alfândega velha esperando pela sua cria. Os olhos humanos não a podem ver porque estão envoltos em uma fumaça de matéria...

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