Friday, May 26, 2006

GRACIELA

1990 foi o melhor e pior ano da minha vida. Mais adiante entenderão porque digo isso. Melhor porque foi nele que conheci a Graciela. Uma loira de olhos azuis, lábios finos, seios fartos.
Nos conhecemos no pátio do Centro Cultural do Mindelo. Eu estava saindo do cyber café quando os meus olhos a viram. Estava sentada debaixo da arvore que estava carregada de tamarinos lendo um romance de um autor cabo-verdiano. Aproximei-me e disse-lhe:

- Bela escolha. Ela me olhou perplexa e retrucou.
- Desculpe!
- Disse que o livro é bom.
- Espero que assim seja. Conheces o autor?
- Ele é meu tio.
- Ah, bom! Deve ser por isso que dizes que o livro é bom.
- Nada disso. A critica é quem o diz.
- Estava brincando.
- Como é que te chamas?- perguntou-me.
- Chamo-me Crioulo. E tu?
- Graciela.
- É um lindo nome. És portuguesa?
- Sim.
- Prazer em conhecer-te.
- O prazer é meu.
- Espero que gostes do ilhéu.
- Cheguei a dois dias e ainda não conheço nada.
- És uma mulher de sorte porque sou um óptimo guia, se quiseres posso guiar-te.
- Aceito sim.

Levei-a a todas as praias. Apresentei-lhe ao nosso pôr do Sol que é único.
Os amigos que frequentavam o bar do Mindelact que fica no já referido centro ficaram mordidos de inveja por ver-me na companhia de uma bela fêmea. O Doutor que é um achegado e frequentador assíduo do bar disse-me:- Sim senhor! Crioulo, apanhas-te uma bela portuga! - Não sejas parvo! Somente estou a prestar-lhe um serviço.
- Sei qual serviço prestas...

A empregada da taberna ria-se as nossas custas e dizia que ainda bem que a nossa Senhora lhe protegia...
Como sinto nostalgia daquela época em que dialogava-mos de coisas sem importância. As vezes eu enfadava a subordinada a tal ponto que ela pegava-me no pescoço mordendo a língua e depois largava-me benzendo-se.
Um amigo chamava o Centro Cultural de psiquiatria por causa da malta que o frequentava. Arengava-mos de política, de teatro, de mulheres etc.
Faz doze anos que estou no corredor da morte. Quando prenderam-me preventivamente fiquei numa cela onde tinham mais uns dez cativos. Lá na rua ouvia histórias de detento caloiro que era feito de mulher pelos outros encadeados. Ao aqui os capturados afastaram-se de mim. Talvez já tinham conhecimento do meu feito.
Estive dois anos sem ser julgado e só depois da apreciação final do Meritíssimo Juiz é que enterraram-me neste cubículo. No princípio foi difícil viver sob regras duras. Para um homem que nunca teve que dar saistafoções ao ninguém foi complicado me habituar a ter horário para tudo.

Tudo aconteceu numa noite de sexta-feira do referido ano. Vinha-mos da Baia das Gatas num belo Nissan terrano que a minha acompanhante tinha alugado. O contador marcava 60 Km por hora. O único som que se ouvia dentro do carro era o de um CD de mornas antigas. Ela estava com os pés descalços em cima do porta-luvas. Eram pés pequenos e lindos, dos tamanhos trintas e seis. No tornozelo esquerdo tinha uma pulseirinha que comprou num mandjac. De vez em quando pegava-lhe na mão e pousava os meus lábios nele.
De repente fui obrigado a fazer uma travagem brusca por causa de um patrol que nos ultrapassou e parou no meio da estrada, a nossa frente. Graciela só não bateu com a cabeça porque tinha posto o sinto de segurança. Desci para ir falar com o condutor e quando estava perto desceram do jipe quatro homens armados. Graciela tentou fugir e não conseguiu. Vio...laram... nos e depois foram embora. Será que quem ler este conto consegue imaginar a dor que senti? Não estarei perdendo meu precioso tempo que é escasso ao escrever este conto?
Continua-mos o nosso caminho em silêncio e quando chegamos na Cidade Graciela tentou dizer algo que agora não vem ao caso. Pedi-lhe que ficasse calada. Fomos bater na casa do Doutor e juntos dirigimo-nos a esquadra policial. Os agentes da lei nos mandaram esperar que a novela terminasse e só depois é que fomos ouvidos. Relatado a história os policias se entreolharam e desataram a rir na minha cara...
É escusado dizer que não quis ver Graciela mais vezes. Ela disse-me que ficava comigo, que sabia que eu não tinha culpa pelo acontecido. Não sei o que o leitor faria no meu lugar, mas não consegui! Como é que poderia olhar-lhe nos olhos e fingir que não tinha acontecido nada?! Fui mexido na minha dignidade e tinha que repara-lo.
Fui atrás dos violadores. Quando os encontrei fi-los gramar o que me fizeram em duplicado. Depois entreguei-me na polícia. Coincidência ou não, os bofias eram os mesmos que tinham rido de mim. O tribunal me condenou a pena de morte. O Representante do Ministério Publico alegou falta de compaixão.
Porquê não tiveram pena de nós também?!
A noite é o pior momento neste presidio. Custa a passar. O silêncio é tão religioso que me incomoda.
A leitura e a escrita foram os meios que encontrei para quebrar a monotonia deste lugar.

Nestes últimos dias tenho meditado muito. Pondero em minha mãe que está amargando por me ver aqui. Acho que ela curte mais por saber que os dias que tem para estar comigo estão a esgotar-se.
O meu causídico está tentando meter recurso para anular a sentença. Não tenho esperanças que ele consiga qualquer coisa.
É fácil julgar quando não estamos na pele de quem sofreu. Queria ver se fosse o Digníssimo Representante do Ministério Publico que tivessem rebentado as carnes. De certo era capaz de aplicar a tal misericórdia que passou o Julgamento inteiro a aclamar que não tive.

Serei executado na próxima semana e por isso tenho tido mais tempo de intervalo. A minha ementa tem sido variada. Posso comer o que eu quiser. Hoje almocei lagosta e ainda não decidi o que pedirei para o jantar.
Como vou morrer a lei dá-me esses privilégios.

- Olá Crioulo. Como é que estás? - Perguntou-me a Graciela entrando na minha cela.
- Nestes últimos dias não tenho conseguido dormir.
- Não te preocupes, tudo vai correr bem.
- Infelizmente o Doutor não conseguiu impedir a execução...
- Não estava a espera que ele conseguisse Graciela.
- Não me conformo!
- O que é que vais fazer da tua vida­?
- Sou a culpada por tudo. Se não me tivesses conhecido este pesadelo não estaria acontecendo. Irei viver remorsada para o resto dos meus dias.
- Ei! Ei! Não quero que chores. Quero partir com a tua imagem alegre na minha memória. Não foste culpada de nada. Foste a mulher que mais trouxe alegria e serenidade a minha vida. Toma
- O que é isso?
-É o meu livro que escrevi aqui na cadeia. Quero que o publiques.



- Desculpem interromper mas está na hora. A senhora terá que sair para que o padre possa falar com o condenado.
- Não. Não quero falar com nenhum papa-hóstia.
- A escolha é sua. Mas mesmo assim a senhora terá que deixar a cela.
- Adeus Graiciela.

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