Friday, May 19, 2006

PEDIDO DE PERDÃO

Três Mercedes estacionam na porta do bar da Julia. O motorista do carro do meio desce e abre a porta do veículo para um homem que veste um fato branco de linho fino descer. Ele entra no estabelecimento acompanhado pelos guarda-costas e dirige-se ao balcão onde pergunta pela proprietária.

- Quem é que pergunta por mim? Retruca Júlia vindo da cozinha limpando as mãos num avental azul-escuro.
-Sou eu.
- Quem é o senhor? “Guilherme tira os óculos de sol e pergunta”.
-Esqueceste de mim Júlia?!
- Guilherme! O que é que fazes aqui? Pergunta a Júlia com a voz trémula.
- Vim por muitos motivos. Tu és um deles.
- Por minha causa? “Pergunta a pobre assustada”.
- Será que me concedes um minuto?
- Da última vez que nos vimos quebraste-me o bar, deixaste-me cheia de marcas no corpo.
- Na minha vida aconteceram coisas que me fizeram ver o quanto errado eu fui. Por isso estou fazendo uma tourneé ao meu passado para limpar as burradas que fiz no passado. Aqui está o dinheiro que te roubei. “Guilherme tira um talão de cheque do bolso é dá uma quantia de dinheiro para a Júlia”.
- Não dá para acreditar que aquele homem é o Guilherme. O que será que ele estará aprontando? “Perguntou alguém”.
- Viram aqueles carros lá fora?! Dizem que são dele. “Disse outro homem”.
- Ouvi dizer que ele contraiu matrimonio com uma milionária. “Retrucou outra pessoa.”
- Aceitas conversar comigo?
- Está bem. Vais ter que ser rápido porque não tenho muito tempo.
- Também não me posso demorar.
- Vamos para a sala de estar. “Júlia fez sinal a alguém para vigia-los”.
- Aqui continua tudo igual. “Disse o Guilherme ao entrar na sala de estar da Júlia”.
- Continuo a mesma pessoa. Tu é que estás bem da vida. É engraçado. Fizeste a vida negra há muitas pessoas e olha como estás. Trabalho feito uma mula e não tenho nada…
- Tu é que dizes que eu tenho tudo na vida.
- E não tens? Olha como vestes, os carros que estão lá fora, esse gordo cheque que me deste?!
- Isso é só matéria Júlia.
- Matéria! Fizeste de tudo para ter dinheiro. Roubaste, fui a tua escrava durante anos. Em vez de estares na cadeia olha onde estás. Ainda dizes que tudo é matéria! Isso faz-me pensar que viver uma vida de honestidade não me levou a nada. Quem disse que o crime não compensa?
- Estou pagando pelos meus erros Júlia. Se te serve de consolo acredite que preferia estar enjaulado em vez de estar na posição que me encontro hoje.
- Qual estória!
-Ouve o que tenho a dizer.
- Desembucha de uma vez porque não tenho a vida ganha como tu.
- Tens razão quando dizes que passei a vida correndo atrás de cascalho. Quando fui embora raspei todo o dinheiro que guardaste durante anos. Hospedei-me numa dessas pensões ordinárias que tem por aí. O dinheiro deu para viver alguns meses. Quando ele acabou não teria para onde ir se não tivesse encontrado o Barbicha. Ele era um homem de media estatura, tinha a cabeça raspada, usava duas argolas de ouro em cada uma das orelhas e era gordo. Chamavam-lhe esse nome por causa da barba. Não tinha piedade de ninguém Júlia. Quem atravessasse no seu caminho podia se considerar morto.
- Sempre andaste com marginais da pior espécie.
- Nunca tinha conhecido alguém assim. O pessoal com quem eu andava são considerados amadores ao pé dele. Barbicha tinha uma organização criminosa que assaltava joalharias, bancos, falsificava dinheiro etc. Os nossos crimes eram organizados para dar certo. Tudo era planejado ao mínimo detalhe.
- Porque me estás contando estas coisas? “Pergunta a Júlia interrompendo a narração do Guilherme”.
- Vais entender. A nossa organização era muito conhecida. A Polícia Judiciaria fazia de tudo para nos prender e não conseguiam. Éramos conhecidos como os (lagartos escorregadios). A comunicação social estava caída sobre aquela Policia Cientifica devido aos fracassos na investigação.
- Lembro de ter ouvido falar sobre essa organização na televisão. Não duvido que tenhas tido algum envolvimento com ela. És homem para tudo. Agora percebo de onde é que vem o teu dinheiro.
- Enganas-te.
- Claro! Agora estás cheio do cacau!
- O meu dinheiro não vem do crime Júlia.
- Guilherme! Conta isso para quem não te conhece.
- Deixa-me acabar a história. É certo que o dinheiro do crime entrava a rodo, mas também saía do mesmo jeito.
- Explica-me uma coisa Guilherme. Como é que vocês escapavam das garras da P. J? Eles mesmos não entendiam como é que isso acontecia!
- O Barbicha tinha um informante dentro da Polícia. Era conhecido como o X nove. Ele informava ao nosso chefe de todos os passos da polícia. Como tudo o que começa errado termina mal os Lagartos escorregadios não poderiam ser diferentes. O Barbicha e o X nove se desentenderam por causa da divisão dos lucros. Ele queria ter uma parcela mais elevada na partilha e isso desagradava ao chefe dos lagartos. Barbicha armou uma ratoeira para apanhar o X nove e ele também teve a mesma ideia. No último assalto o nosso informante não passou todas as informações e a polícia caiu em cima de nós. Quando Barbicha viu que os agentes da lei estavam no local do assalto viu logo que tinha caído na armadilha do informante. Jurou que se escapasse iria atrás dele. Dito e feito. A polícia que tinha o banco cercado disse-nos para sair de mãos para cima que teriam compaixão de nós. “Quando é que a Policia tem compaixão de criminosos?” Aquilo foi um banho d´sangue. Teve mortes de ambos os lados. Dos Lagartos eu e o Barbicha fomos os únicos que saíram com vida. Aquela noite ficou consagrada como a noite sangrenta.
Barbicha cumpriu o prometido e fomos atrás do X nove. Passamos a Cidade a pente fino até encontra-lo. Conseguimos atrai-lo para uma armadilha. Só que ele não tinha nada de burro, muito pelo contrário. A polícia estava interessada na cabeça do Barbicha. O nosso informante queria fazer carreira prendendo o chefe da maior quadrilha criminosa do país. Julgou que conseguiria esse feito sozinho. Os dois brigaram até à morte. Quando vi que o X nove tinha informado a Polícia onde estávamos disse ao Barbicha para fugir-mos porque tinha ouvido a sirene da polícia vindo em nossa direcção. Ele não me deu ouvidos, queria matar o nosso delator de qualquer maneira. Tratei de fugir dali sem mais delongas. Foi na televisão que fiquei sabendo que quando a Polícia chegou os dois estavam quase mortos devido aos ferimentos e da perda de sangue. Barbicha que sabia que a hora de ajustar contas com o Criador tinha chegado contou quem era o informante dele dentro da polícia e morreu a caminho do hospital. O X nove foi levado ao Tribunal e cumpre uma pena de prisão perpétua. O Meritíssimo Juiz o considerou inimigo número um do Estado. É assim que termina a história Júlia.

- Porquê disseste que estás aqui por minha causa. Perguntou à Júlia intrigada.
- Tenho uma filha.
- Tens uma filha?
- Sim Júlia. Guilherme introduz a mão direita no interior do casaco e tira uma fotografia que mostra à Júlia.
- Ela é linda. Não parece contigo. Quantos anos que ela tem?
- Fico feliz por ela não se parecer comigo. Ela tem cinco anos.
- E a mãe dela.
- Somos casados. Eu a conheci um mês depois de ter deixado a vida do crime. Estava andando na rua quando vi dois homens assaltando uma jovem. Aproximei e disse-lhes para deixarem-na em paz. Um deles puxou uma faca e partiu para cima de mim. Despi o casaco e o enrolei nos braços. Brigamos e quando o outro viu que eu ia acabar vencendo o companheiro desferiu-me seis tiros. Caí sem sentidos. Fui acordar semanas depois num hospital. Quando acordei a enfermeira de plantão disse-me que enquanto estive em coma a mulher que me tinha levado para o hospital não saiu da cabeceira do meu leito um minuto sequer. Um ano depois casei-me com ela. Era filha única de um casal de milionários. É por isso que tenho tudo o que tenho Júlia.
- Vês! Depois dizes que não tens sorte na vida…
- Minha filha é doente Júlia. Ela tem um problema no coração que é irreversível. Já percorremos o mundo todo em busca da solução para salvar a minha filha e nada. Todo esse dinheiro, essa vida boa não me serviu de nada Júlia. No meu passado dei tanto valor a matéria que hoje vejo que ela não me serviu de nada. Para quê ter dinheiro se ele não pode salvar a vida da pessoa que mais amamos Júlia?
- Quem te vê a falar assim não é capaz de acreditar Guilherme.
- Jurei que se a minha filha fosse poupada faria de tudo para melhorar a vida das outras pessoas. É por isso que estou aqui para pedir que me perdoes por tudo de mal que fiz no passado. Antes de vir para aqui estive na casa do velho Augusto e contei-lhe a mesma história que acabei de te contar. Ele perdoou-me Júlia. Disse que terei muito tempo na vida para aprender. Acho que tudo isso é um castigo que a vida me está dando. Se tenho que ser castigado tudo bem Júlia. Aceito qualquer castigo. Mas não na minha filha. Ela não pode pagar pelos meus erros.
-Fico surpreendida pela tua mudança Guilherme. Confesso que nunca imaginei voltar a ver-te na minha vida.
- Perdoas-me Júlia? Preciso do perdão de todos os que magoei. É importante para mim. Acredite que estou sofrendo pelos meus pecados.

Guilherme foi poupado para aprender a viver. Não é que a vida estava vingando na filha dele. Os homens têm que sofrer para poder valorizar o que a vida nos dá. O sofrimento não passa de um exercício espiritual. As vezes nós perguntamos porquê eu? O que fiz para estar sofrendo como um escravo? Essa pergunta é um pouco egoísta. Será que não podemos sofrer mas os outros podem? Em vez de fazer essa pergunta devemos é perguntar: O que poderei aprender com isso?! Que tipo de homem deverei ser a partir de agora?
É isso que importa nesta vida. Ela passa depressa. As vezes os nossos olhos estão embaciados pela neblina das estradas que tomamos aqui na terra que não damos conta de que a vida está passando e que com ela vai as nossas oportunidades de juntar o nosso tesouro. Não me refiro ao tesouro material, mas sim a do espírito, aquele que levaremos para além do véu. Muitas vezes quando despertamos para a realidade da nossa vida a idade já nos terá alcançado e com ela vem os problemas da velhice e o nosso tempo estará acabando.
Quantos Guilhermes encontramos perdidos nessa vida mortal? Alguns sabem que erraram e não pedem desculpas pelos erros, outros não o pedem por causa do orgulho que lhes dominou o coração.

Adeus.
Ronana

28/04/2006

1 Comments:

Blogger sarronpontocom said...

Gostei imenso deste teu texto... Ronana... Bem conseguido e prende a atençã do principio ao fim, para além da conclusão final, ou seja tenta passar algo de positivo nofim.. Excelente ... continua

Tey Alexandre Fonseca Soares

8:03 AM  

Post a Comment

<< Home